segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Wuthering Heights

E para oficializar a abertura do Blog Biblioteca Populacho apresentarei um clássico (mesmo que seja o livro mais comentado, o assunto mais batido, eu preciso falar dele!), quiçá O clássico dos clássicos para mim, escrito por Emily Brontë.

Morro dos Ventos Uivantes


Não vejo maneira melhor de começar a falar dessa grande obra que não seja falando brevemente sobre sua autora. Emily, nascida na Inglaterra em 1818, era irmã de mais três escritoras, Charlotte e Anne. Seus escritos são em maioria poesias assinadas com seu pseudônimo Ellis Bell, sua única obra em prosa foi O Morro dos Ventos Uivantes. De personalidade introspectiva e bastante reservada (mais para frente pretendo fazer um comentário sobre isso) manteve um círculo de relações limitado.Estudou alemão como autodidata e tocava piano. Infelizmente morreu de maneira prematura aos seus 30 anos vítima da tuberculose.

A Obra.

A primeira vista o livro foi particularmente muito perturbador, pois a primeira "cena", por assim dizer, que Emily descreve para os leitores são as relações degradantes dos moradores do Morro dos Ventos Uivantes, presenciados pelo inquilino de uma propriedade vizinha [Thrushcross Grange], chamado meramente de Sr. Lookwood, um londrino introspectivo e tímido que busca encontrar a paz no campo.

Vamos dar uma olhadinha?

Bem, não pretendo contar toda a história, apenas dar uma pincelada, mas não se preocupe, irei como Jack Estripador, devagar e por partes...

Todo malefício começa de algum lugar - não que a essência dele fosse má, no entanto seus atos posteriores são inquestionavelmente maus... - e tudo começou com a chegada de um garoto pequeno que depois se revelou um homem introspectivo e de poucos amigos(senão nenhum), achado pelo Sr.Earnshaw nas ruas de Liverpool, pelo que parecia órfão. Sr.Earnshaw já tinha dois filhos, Catherine e Hindley, que nos primeiros momentos detestaram a nova "aquisição".E esse garoto foi chamado de Heathcliff.

Enfim, o menino com traços aciganados cresce odiado por Hindley, que por sua vez invejava a forma que o pai dava preferência ao estranho garoto em vez de seu próprio sangue, com isso desencadeando desavenças entre Hindley e Heathcliff as quais o Heathcliff nunca esquecerá.

Em contrapartida temos Catherine que se tornou a melhor amiga de Heathcliff, de uma forma que eu não ouso entender. A forma que Emily escreveu, fazendo Nelly, a empregada que vivenciou tudo e que conta a história toda para Lookwood, a narradora acaba por não nos proporcionar pormenores sobre essa relação, a não ser o fato de que eles eram visivelmente muito próximos.O fato do temperamento difícil de ambos, mesmo que Heathcliff não o externasse completamente. O ciúme, da parte de Heathcliff para com Catherine quando ele mostra que marcou quantas noites ela havia dedicado à ele.

-As cruzes marcam as noites que você dedicou aos Linton, os pontos as que você dedicou à mim. Está vendo: Marquei todos os dias.

Os Linton na época eram os proprietários das terras vizinhas, uma das mais belas propriedades do lugar, sendo cobiçada tanto quanto o Morro dos Ventos Uivantes. E graças as engrenagens maquiavélicas do destino, Edgar Linton se apaixona por Catherine, mas isso deixo para falar depois.

Voltado aos aspectos da relação Cathy x Heatcliff, também existiam:

Os caprichos imaturos da parte de Catherine... Eles podem ser lidos muitas vezes do livro, mas meu preferido é o que faz partir o coração de Heathcliff. Quando Linton pediu Catherine em casamento...

"Então(Nelly contando a história), submeti-a (Catherine) aos seguinte interrogatório. Para uma moça de 22 anos, não estava fora de propósito.
-Por que gosta dele Srta. Cathy?
-Que pergunta! Gosto... e isso basta
-Absolutamente. Deve dizer o por quê.
-Por que é belo e agrada estar em sua companhia [...] Porque é jovem e alegre [...] E porque gosta de mim [...] E será rico e eu gostaria de ser a mulher mais importante desta região, orgulhosa de tê-lo como marido."

E enquanto isso Heathcliff estava sentado no escuro quieto, escutando tudo sem ser percebido.

"-[...]Não me interessa casar com Edgar Linton, como não me interessava estar no céu. E se o sujeito perverso que aqui vive não houvesse degradado tanto Heathcliff, eu não teria pensado nisso. Agora me degradaria eu mesma, se casasse com Heathcliff"

Ai! É indicado colocar água sobre a área queimada. Nesse instante Heathcliff começa a se retirar silenciosamente do local, e também acaba por perder uma linda declaração... Se é que se pode chamar de declaração... Pois ela já amava Heathcliff, apenas não dava a importância necessária à isso, talvez pela imaturidade, como mostra as inscrições achadas por Lookwood no Morro dos Ventos Uivantes com o nome dela mesma terminando com o sobrenome ora Heathcliff ora Linton. E também graças a uma parte seguinte à conversa...

"-Enquanto eu for viva, Helena(Nelly), nenhum mortal conseguirá isso(separar Cathy e Heathcliff).Poderão todos os Linton da terra desaparecer, mas não consentirei em apartar-me de Heathcliff.Oh! Não é isso o que quero dizer... não é isso que pretendo! [...] Nelly, eu vejo agora, tu me julgas uma miserável egoísta, mas nunca te passou pela cabeça que, se Heathcliff e eu nos casarmos, seremos mendigos? Enquanto que, se me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a erguer-se, colocando-o fora do jugo do meu irmão.[...] É ele a minha grande razão de viver. Se tudo perecesse, mas Ele ficasse, eu continuaria a existir."

Isso explica o fantasma que nunca abandonou Heathcliff? (hohoho spoiler)

"[...] Meu amor por Linton é como a folhagem dos boques: o tempo o transformará, estou bem certa, como o inverno muda as árvores. Meu amor por Heathcliff assemelha-se aos rochedos imotos que jazem por baixo do solo> fonte de alegria pouco aparente mas necessária. Nelly eu sou Heathcliff! Ele está sempre, sempre, em meu pensamento"

Por fim, essa relação nascia em um meio em que as convenções sociais e as perversidades naturais do homem constituem uma força contra a qual não se pode lutar, deturpando de tal forma essas duas criaturas que se torna impossível um recomeço que não seja a morte de ambos. Não, esse livro não se trata de tragédia Romeu e Julieta, mesmo sendo uma tragédia romântica, e das boas.

Na mesma noite que Cathy aceita o casamento, Heathcliff some no mundo partindo o coração de Cathy.

Catherine se casa com Linton, o que na minha opinião foi o começo de sua morte interior, ela que sempre foi uma mulher de sangue quente, emoções fortes que a cegavam, acaba por mudar seu jeito de ser estando ao lado de Linton, perdendo toda a vivacidade que tinha ao lado de Heathcliff. O casamento para ela no meu ponto de vista (nem tão bem visto) foi como uma gaiola para um passarinho selvagem. Uma frase que adoro é quando ela briga com Linton, um tremendo covardão, e diz:

"-[...] Teu sangue sempre tão calmo não conhece as ardências da febre.Tuas veias estão cheias de água gelada, mas as minhas fervem e, diante de semelhante frieza, pulam."


Bem, acho que já chega não é? Não estou aqui para fazer resumo ou coisa parecida. Vamos ás especulações pessoais.

Ponto de vista nem tão bem visto.

O livro foi muito bem escrito, sem dúvida. Esses dias, preparando esse post tive um estalo, ei! Lembra que falei que iria comentar isso?  "Introspectivo", "Poucos amigos"... Não lembra a autora? É apenas uma especulação pessoal, mas, não faz sentido?  Apenas Emily poderia entender perfeita e profundamente Heathcliff e seus sentimentos, não por que ela é a sua criadora, mas por que Heathcliff tem traços de Emily. Poderia ser o personagem um espelho pessoal de algum trauma pessoal? Apenas Emily(ou alguém que já tenha passado por isso ou sentido esse sentimento) poderia medir seu amor, a profundidade, a nobreza que logo se deturpou e degradou, como é do feitio do amor, facilmente se envenenar. Apenas o completo entendimento de um personagem poderia imortaliza-lo dessa maneira. Talvez seja apenas minha imaginação, afinal não tenho nenhum prova maior do fato, [ por isso é apenas especulação, então não me apedrejem  pfv ;^; ]  talvez nunca saibamos pelo que ela passou na vida para ter criado Heathcliff, o modelo de um vilão "diferente".

Que tal fechar o post com um pouquinho do livro?


"-Ei de tê-la uma vez mais entre meus braços! Se ela estiver gelada, pensarei que é o vento norte que me enregela. E se imóvel ela está, é porque adormeceu."



Cultura é conhecimento e conhecimento é poder.                          *Peace Off

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